terça-feira, 2 de dezembro de 2008          
 
    Anabela Pereira fala quatro línguas, é o rosto do turismo em Bragança e só gostava de ter tido há uns anos as Novas Oportunidades para chegar a uma licenciatura e lhe chamarem doutora com razão.
    Há 31 anos que trabalha no posto municipal de turismo, faz traduções para o tribunal, polícias e outras entidades e dá explicações.
    Todos lhe reconhecem competência e é frequentemente tratada por doutora, mas a vida não lhe permitir conseguir o diploma que atesta o estatuto e agora diz que já é tarde.

    Mesmo assim, e apesar de ter o 11º ano, inscreveu-se nas Novas Oportunidades e está a fazer o processo de reconhecimento e validação de competências com equivalência ao 12º ano.

    "É só por mim", diz à Lusa, admitindo que "hoje em dia dizer que se tem o 11º é quase o equivalente a ter a quarta classe de antigamente".

    O certificado do 12º não lhe trará qualquer vantagem profissional e não a motivará para, aos 51 anos, fazer a licenciatura que tanto ambicionou noutros tempos.

    "Se há uns anos tivesse tido a oportunidade seguiria certamente uma licenciatura, mas não me sinto inferior", disse.

    Anabela tem sido uma autodidacta ao longo da vida e foi sempre uma boa aluna em França, onde estudou até ao 11º ano, já que os pais eram emigrantes.

    Chegou a ser distinguida com prémios pelo seu percurso e capacidade de aprendizagem, mas apaixonou-se e "não pensava em mais nada".

    Casou e acabou por regressar a Portugal com o marido.
    Já sabia inglês da escola e francês, e em Bragança a proximidade com a fronteira ajudou-a a aperfeiçoar o espanhol.

    Aos 20 anos inaugurou o posto municipal de turismo de Bragança com outra colega e há mais de três décadas que ali trabalha.

    Quando começou entregaram-lhe apenas um mapa, a partir do qual decidiu explorar a cidade e para melhor a divulgar aos turistas que procuram os seus serviços.

    É conhecida como a Anabela do turismo, o que lhe causa orgulho, mas já não diz o mesmo de quando a tratam por doutora.

    Fica revoltada, sobretudo porque quando diz que não é doutora já se confrontou com reacção do tipo "como é que está a exercer essa função, se não é doutora".

    "Como se isso correspondesse a não ter capacidade", desabafa.

    A falta de habilitações já a prejudicou, nomeadamente no início da carreira, quando num concurso público não conseguiu o lugar de efectiva por não ter o comprovativo da equivalência em Portugal ao 11º ano que fez em França.

    Trabalhou 10 anos como eventual e só depois conseguiu entrar para o quadro da autarquia.

    Hoje em dia é guia profissional e intérprete especialista, mas ganha menos 300 euros do que o colega que, há seis anos, chegou ao posto de turismo como estagiário, mas com uma licenciatura que lhe garantiu o lugar de técnico superior.

    "A primeira vez que cá cheguei foi logo assim: eu não te trato por doutor", contou à Lusa Eurico Moreno, que reconhece que a experiência de Anabela contribuiu muito para o seu crescimento profissional.

    "Pelo facto de ter licenciatura não sou mais que a Anabela, que tem uma experiência que muitas vezes eu é que aprendo com ela", afirmou.

    A orientadora das Novas Oportunidades quer que Anabela continue e tire uma licenciatura.

    Ela sempre gostou de História, Filosofia ou Direito, mas aos 51 anos esta avó "muito contente" diz que a oportunidade veio tarde.

    "Gostava de ganhar mais e necessitava de uma licenciatura, mas não vou enganar-me a mim própria. Já não tenho capacidade para memorizar", afirmou.


       Helena Fidalgo (texto) e Ivo Pires (fotos)
 
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NOVAS OPORTUNIDADES: Se fosse há uns anos, Anabela do Turismo conseguiria ser doutora em Bragança