A má qualidade da água, os caudais e a construção dos novos empreendimentos hidroeléctricos foram os principais problemas detectados na Região Hidrográfica do Douro (RHD), no decorrer de um debate que decorreu no Peso da Régua.
A Administração da Região Hidrográfica (ARH) do Norte, I.P. e a Confederación Hidrográfica del Duero promoveram uma sessão pública de debate sobre as principais pressões e impactos a que a Bacia Internacional do Rio Douro está sujeita.
O presidente da ARH, António Guerreiro de Brito, referiu que os participantes no encontro se mostraram essencialmente preocupados com a questão da qualidade da água, os caudais e as infraestruturas que estão planeadas no Plano Nacional de Barragens para este território.
Segundo o responsável, o debate pretendeu precisamente reunir contributos para a elaboração do Plano de Gestão de Região Hidrográfica, que estará concluído e aprovado no final do próximo ano.
A sessão contou essencialmente com a presença de investigadores universitários e associações ligadas à questão do ambiente.
Bordalo e Sá, especialista em água do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), destacou como um dos principais problemas do Douro a questão da qualidade da água.
Explicou que, em Espanha, o principal tipo de poluição que afecta o Douro é a agrícola, curso de água onde se registam níveis muito baixos de oxigénio e muito elevados de matéria orgânica.
No território espanhol, existem na RHD cerca de 500 mil hectares de regadio.
Acrescentou que, apesar de se verificar uma melhoria da qualidade da água até Crestuma-Lever, a partir desta zona “o grande problema são os esgotos urbanos que continuam a ser despejados para o rio”.
Só que, segundo o investigador, no lado português também a nova forma de armação do terreno, de vinha ao alto em detrimento dos socalcos, está a originar uma grande erosão que vai directamente para o rio.
A isto juntam-se ainda alguns resíduos das indústrias do azeite e vinho.
“À medida que descemos para a foz do rio, vai aumentando o número de pessoas e o tipo de poluição altera-se”, salientou.
O presidente da Confederación Hidrográfica del Duero, António Gato Casado, reconheceu o problema provocado pela agricultura no Douro, mas salientou que o Governo espanhol vai incorporar em todas as barragens do troço internacional, sistemas avançados de tratamentos de águas residuais.
“Isto chama-se tratamento terciário que elimina a contaminação por nitratos e fósforo, que é o que está a provocar os maiores problemas de eutrofização dos barragens do troço internacional.
“Estes tratamentos terciários vão afectar directamente Portugal”, sublinhou.
Relativamente ao caudal do rio, Bordalo e Sá referiu que, por exemplo, na Barragem de Crestuma-Lever se “registaram vários dias seguidos com caudal zero”.
Rui Cortes, investigador da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), adiantou que estão estabelecidos valores de caudais entre os lados espanhol e português, mas criticou a inexistência de uma monitorização.
“Em situações de excepção verificadas no lado espanhol, quando existe seca, Espanha não fica obrigada a proceder à libertação de caudais”, salientou.
Acrescentou que, nesses anos, Portugal “está completamente dependente da boa vontade do país vizinho”.
Rui Cortes salientou ainda outras questões preocupantes do Douro como a cada vez maior procura do turismo fluvial o que provoca a utilização de embarcações de maior calado do que a aconselhada e velocidades não monitorizadas.
Estas questões têm, segundo o responsável, “grandes impactos nas próprias margens do rio”
“As margens do Douro são muito apetecíveis. Verifica-se uma procura cada vez maior a nível de caminhos, estradas ou da construção, que não estão devidamente controlados. Há ocupações indevidas do domínio público hídrico”, salientou Rui Cortes.