segunda-feira, 1 de dezembro de 2008          
 
    A saída do dirigente histórico comunista Carlos Costa do Comité Central ao fim de 48 anos no órgão máximo do PCP foi domingo à noite contestada na reunião de delegados ao XVIII Congresso comunista, disseram à Lusa fontes partidárias.
    A lista do novo Comité Central foi aprovada, por voto secreto, com 98 por cento dos votos dos 1402 delegados, merecendo apenas 8 votos contra e 17 abstenções, numa reunião à porta fechada que durou cerca de três horas.
    A saída do intelectual Carlos Costa, proposta pela direcção comunista cessante, foi contestada por elementos daquele órgão, entre os quais Margarida Tengarrinha, e Filipe Dinis, da direcção regional de Lisboa.

    Segundo delegados presentes na reunião, o próprio Carlos Costa, numa curta intervenção, exprimiu abertamente a sua vontade de continuar naquele órgão.

    Carlos Costa, 80 anos, aderiu ao PCP em 1943 e subiu ao Comité Central em 1961. Esteve 15 anos preso antes do 25 de Abril e foi um dos dirigentes que participou na célebre fuga da fortaleza-prisão de Peniche com Álvaro Cunhal.

    A seguir às intervenções dos delegados que defenderam a continuação de Carlos Costa no CC, também em nome do respeito pela memória e pela história do partido, outros delegados intervieram em defesa dos critérios seguidos pela direcção para a elaboração da lista.

    Na reunião, a lista proposta foi apresentada por Luísa Araújo, do secretariado do CC e da comissão eleitoral do Congresso, e não houve mais intervenções de direcção cessante.
    De acordo com outras fontes do PCP, a proposta da direcção para a saída de Carlos Costa, um dirigente que sempre se manteve fiel à linha oficial do partido, já tinha causado surpresa e contestação junto de alguns sectores comunistas na anterior reunião do CC.

    No discurso de abertura do XVIII congresso do PCP, que termina segunda-feira em Lisboa, o secretário-geral comunista indicou que os critérios da composição do novo CC, que sofreu uma “ligeira redução”, foram o “rejuvenescimento e renovação” e uma composição social de maioria operária e trabalhadores, entre outros.

    Além de Carlos Costa saíram o deputado Honório Novo, e Vítor Dias, que esteve 29 anos no Comité Central e 14 na Comissão Política.

    No Comité Central mantêm-se, entre outros, o antigo líder Carlos Carvalhas, o vice-presidente da Assembleia da República António Filipe, a ex-deputada Odete Santos e os históricos Albano Nunes e Domingos Abrantes, que deixou a Comissão Política no anterior congresso.

    Do sector sindical, mantêm-se Arménio Carlos, dirigente da CGTP, e Amável Alves, enquanto outra sindicalista da Intersindical, Maria do Carmo Tavares, abandona este órgão.


Jerónimo de Sousa fecha porta
a "entendimentos artificiais" com PS e Bloco
 
    Na abertura do XVIII Congresso, em Lisboa, Jerónimo de Sousa fez um discurso crítico ao PS, à sua ala esquerda, e fechou a porta a “entendimentos artificiais” com socialistas ou o Bloco de Esquerda.

    No espaço multiusos do Campo Pequeno, Jerónimo afirmou a estratégia eleitoral do PCP com a CDU para as eleições do próximo ano, sublinhando que quer transformar a “oposição social” das ruas em “oposição política”, numa alternativa em que o partido deve ter “um reforço”.

    Essa alternativa, avisou, “nunca será um acto, nem surgirá por geração espontânea ou de entendimentos artificiais pensando mais no poder do que na política”.

    Num longo discurso de uma hora e vinte, Jerónimo de Sousa acusou o PS de, no poder desde 2005 com o Governo de José Sócrates, seguir uma política de direita e de nem mesmo “as movimentações” de sectores “à esquerda dentro do PS” - o grupo de Manuel Alegre, que não nomeou directamente - dar garantias de esquerda ao PCP.

    O líder comunista aponta o dedo e afirma que o objectivo deste grupo é o de “alimentar ilusões” e de travar a transferência dos “descontentes” com o executivo de Sócrates.

    O objectivo do grupo de Alegre, advertiu, pode ser “travar a erosão do PS”, permitindo “a sobrevivência da política de direita”.

    O Bloco de Esquerda foi apresentado como um partido “social-democratizante disfarçado por um radicalismo verbal esquerdizante” e que tem uma fixação no PCP, “caindo muitas vezes no anticomunismo”.

    De resto, o secretário-geral comunista fez um balanço de quatro anos de mandato, destacando o reforço eleitoral do partido e garantindo a coesão interna, contra os “mostrengos” que previam o contrário.

    Jerónimo de Sousa insistiu na defesa da “identidade do partido”, comunista, como o “chão mais sólido e seguro” para manter a sua “força”.

    A três anos das eleições presidenciais, o líder dos comunistas antecipou a estratégia, afirmando que o PCP irá “afirmar as suas posições próprias quanto ao papel e funções do Presidente da República”.

    Outro momento alto foi a homenagem ao líder histórico Álvaro Cunhal, e a outros dois dirigentes históricos que morreram desde o congresso de 2004, Sérgio Vilarigues e José Vitoriano.

    “Quando dizemos o seu nome é o nome do PCP que estamos a dizer”, ouviu-se no vídeo exibido aos cerca de 1.500 delegados ao congresso, que, no final, aplaudiram de pé.

 
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PCP/CONGRESSO: Saída do histórico Carlos Costa do Comité Central agitou reunião de delegados